Uma homenagem à mulher-mãe!

"E num dia de bendita magia, numa explosão de luz e flor, num parto sadio e sem dor, é capaz, bem capaz, que uma mulher da minha terra consiga parir a paz. Benditas mulheres." Rose Busko

domingo, 22 de julho de 2018

Eu sou mãe e minha viagem importa

Por Fernanda Azevedo

Ser mãe cosmopolita, cheia de sonhos, ambições, desejos, planos e ciente de seus deveres e direitos, não é uma tarefa fácil. Não era nos primórdios e hoje continua sendo árdua a missão de maternar. Dura, pesada e cheia de tabus.

Escutei muito que quando nasce um filho, nasce também uma mãe!

Mas não. Não é bem por ai!

Existem infinitas formas de maternar. De ser. De se permitir. De se encontrar. De vivenciar as tênues linhas que a maternidade nos entrega no parir.

Antes de parir e depois de parir, somos confrontadas a dois tipos de contos: Sendo eles catastróficos demais ou românticos demais.

São mães de primeira viagem, geralmente apavoradas, que escutam horrores sobre o maternar. E pasmem, escutam isso de outras mulheres. Pois afinal de contas suas experiências em nada se pareceram com um conto sutil. E sim com um conto bruto, truculento e cruel escrito pelas mil e umas formas que a violência obstétrica se desenha.

Essas mulheres e seus contos de pânico. Fúria. Ranço. Suor. Lágrimas.
Elas existem aos montes. Empilhadas. Machucadas. Sangrando. Chorando.
Elas estão por toda parte. Mulheres que tiveram seus partos calados. Suas experiências dilaceradas. Seu maternar interrompido. Roubado. Destruído. 

Sim, essas mães importam!
Essas mães existem!
Essas mães possuem suas histórias.
E precisam ser ouvidas!

E não são menos importantes que as mães que estudam, frequentam rodas de apoio, conhecem seus direitos.

Precisamos falar sobre as diversas realidades. Precisamos falar sobre PRIVILÉGIOS que chegam para mães que conseguem pagar um Uber para chegar ao seu destino.

E aquelas que precisam pegar dois ônibus, uma barca, um trem rodar a cidade hostil e violenta com seu filho no ventre ou no colo, ou na mão.

Pegando ônibus lotado para chegar a um espaço confortável que a acolha por algumas horas até que ela saia daquela realidade. E volte para seu lar tendo em mente que semana que vem não vai conseguir ir devido ao custo da passagem.

Sim, essas mães importam!
Essas mães existem!
Essas mães possuem histórias!

É preciso falar sobre seus medos. Temores. Sobre a mudança que as abraça e não é pequena. Sobre a primeira viagem que não é menos importante que mulheres que tem 2, 3, 4 ou mais viagens.

Para se falar em abraçar mulheres. Precisamos sim falar sobre políticas públicas. Já que nosso corpo é político.

Precisamos falar de uma sociedade que não acolhe a mãe no mercado de trabalho.
Que em pleno 2018 nos confrontam com perguntas infames em entrevistas de emprego: E ai, você tem filhos?! Pretende ter filhos? Se em caso de doença do seu filho, você faltaria ao serviço?

Numa sociedade que ainda se importa tão pouco com aquelas que abrem suas pernas ou seus corpos para parir gerações. O que esperar da hostilidade de uma saúde em colapso? Que ainda possuem profissionais com tão pouca empatia para com as mães. Que normaliza falas como:
Não grita! Senão você não será atendida!

Sim, eu sou mãe!
Sim minha viagem importa!

Mas também importa a viagem de Francisca que mora na favela e pouco escuta falar de seus direitos.
Sim, importa a viagem de Luciana que ainda é desencorajada pelas mulheres da sua família a ter seus filhos por meios naturais. Afinal de contas, vai sofrer pra que se pode ter uma cesárea eletiva. Sem se importar ou se informar sobre os riscos para sua saúde.

Sim, importa a viagem da Carolina que está no auge da sua gravidez planejada, da sua vida estruturada, do seu carro na garagem, do seu plano de saúde. Mas está longe de conhecer de verdade seus direitos e do quanto saber seria importante não só para ela, mas para sua cria. E no auge do seu privilégio, construído ou de berço, ela pode sim, ser conduzida à permanecer na escuridão do não saber.

A viagem das mulheres não pode ser interrompida. Banalizada. Golpeada.  Pelo medo e aflição do círculo familiar, do círculo de amigos, pelos colegas de trabalho. Pelo desconhecimento estimulado no consultório, na sociedade, na mídia

Sim, eu sou mãe!
Sim, minha viagem importa!
Importa a viagem de todas.

Abrace. Estimule. Encoraje uma mulher.
Uma mãe. Uma puérpera!

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